Gestão de cobranças: como lidar com a inadimplência em IES?

O elevado número de alunos com mensalidades atrasadas tem preocupado o setor educacional. Menos dinheiro em caixa gera desequilíbrio nas previsões orçamentárias, dificuldade em honrar compromissos financeiros e pode levar as instituições até mesmo à quebra, se essa situação não for controlada. 

Como manter a inadimplência na instituição de ensino superior num nível baixo? Que decisões precisam ser tomadas para uma gestão de cobranças eficiente? 

Um dos principais vilões para o aumento do calote nas mensalidades continua sendo a crise econômica e o desemprego. Estudo do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), de abril de 2019, sobre o perfil dos inadimplentes em geral no país revelou que aproximadamente 62,6 milhões de pessoas estão endividadas, sendo que mais da metade dos inadimplentes estão na faixa entre 30 e 39 anos. 

De acordo com o Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior (Semesp), 8,93% das mensalidades em 2017 tiveram mais de 90 dias de atrasado no pagamento. O setor de educação superior privada permanece o mais afetado, estando acima da inadimplência total das pessoas físicas, que registrou 5,25% no mesmo período. 

Outro agravante foi o fato de o Governo Federal ter imposto restrições ao Fundo de Financiamento Estudantil (FIES). O modelo aplicado até abril de 2019 registrou a marca de 500 mil estudantes inadimplentes, com ônus bilionário exclusivo do governo. Em 2018, o número de alunos matriculados em cursos superiores por meio das linhas de crédito do FIES despencou: apenas 80,3 mil das 310 vagas foram preenchidas, o equivalente a 26% da meta. Ou seja, muito mais gente sem financiamento tendo que custear pelo menos parte da mensalidade. 

Mas esse cenário não é exclusivo do Brasil. Nos Estados Unidos, por exemplo, onde as universidades não costumam ser gratuitas, nem mesmo as públicas, a dívida estudantil chegou a US$ 1,6 trilhão de dólares em 2019. O Banco Central Americano (Federal Reserve) afirma que esse montante é devido por mais de  40 milhões de pessoas. 

Novas regras do FIES 

Um dos objetivos das novas regras do FIES, que entraram em vigor em 2018, é reduzir a inadimplência e garantir coparticipação das IES no aporte dos recursos financeiros. O fundo de financiamento foi estruturado em três modalidades (FIES 1, 2 e 3). Entenda como vai funcionar a seguir. 

Fies 1 

  • sucede o modelo atual; 
  • destinado a estudantes com até três salários-mínimos de renda familiar per capita
  • taxa de juros real zero; 
  • os pagamentos deverão começar a ser feitos assim que o aluno se formar. Fim da carência de 18 meses; 
  • as IES são responsáveis por manter obrigatoriamente um fundo garantidor, com aportes proporcionais à sua taxa de inadimplência. A União poderá depositar até R$ 3 bilhões nesse fundo. 

Fies 2 

  • nova modalidade; 
  • exclusivo para as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, a fim de reduzir a desigualdade; 
  • para estudantes com até cinco salários-mínimos de renda familiar de per capita
  • os recursos são provenientes de bancos regionais e de fundos constitucionais de financiamento dessas regiões — os contratos são gerenciados por esses bancos; 
  • taxas de juros utilizadas para empréstimos dos fundos regionais. 

Fies 3 

  • nova modalidade; 
  • para estudantes com até cinco salários-mínimos de renda familiar de per capita
  • recursos disponibilizados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) — os contratos são gerenciados por bancos privados; 
  • abrange o país todo. 

Prouni 2019 

Estima-se que o Programa Universidade para Todos (Prouni) 2019 siga sem grandes alterações em relação ao ano anterior. 

O Prouni dá bolsas de estudos integrais ou parciais de 50% em IES privadas. É exclusivo para quem não tem diploma de nível superior. Os valores são destinados a famílias com rendas entre um e três salários-mínimos por integrante. 

Outras linhas de crédito estudantil 

Além das linhas de crédito governamentais, existe o crédito universitário privado, concedido normalmente por bancos e empresas especializadas. Funciona como um empréstimo. 

As taxas são mais altas que no FIES, por exemplo, mas a vantagem é que englobam cursos a distância e pós-graduação. O tipo de curso financiado depende dos critérios de parceria entre a empresa de crédito e a IES. 

Gestão de adimplência eficiente 

As mensalidades estão entre as principais fontes de recursos financeiros das IES particulares, tornando-se fator determinante à sua sobrevivência. Isso gera alta competitividade entre as instituições, e é necessária grande quantidade de alunos matriculados — adimplentes — para evitar problemas financeiros. 

Por essa razão, a gestão global da IES deve estar empenhada em gerar uma sensação de pertencimento em toda a comunidade estudantil, incutindo tal cultura organizacional nos seus corpos docente e administrativo. 

É preciso que a universidade constantemente reforce seus valores, de maneira a conquistar aluno e torná-lo importante para a universidade, de maneira que o índice de confiança na instituição se eleve. 

Soma-se a isso um modelo de gestão estratégica de adimplência que compreenda a situação dos alunos inadimplentes e possibilite meios de esses estudantes se manterem em seus objetivos educacionais. Por consequência a evasão escolar é evitada. 

Realizar uma gestão estratégica dos processos de cobrança garante maior dinamismo e gera velocidade nos resultados para a instituição. Trata-se de um modelo de atuação preventiva com ações permanentes de relacionamento que cuidam tanto dos alunos inadimplentes, para que quitem seus débitos, como também os adimplentes, a fim de que não contraiam pendências financeiras. 

Para tanto, uma rede de ações administrativas e comunicacionais integradas deve ser estabelecida, com o auxílio de recursos humanos e tecnológicos. Destacam-se as seguintes: 

  • CRM (Costumer Relationship Management) para o acompanhamento de resultados e visão global de todo o processo; 
  • marketing direto com mensagens personalizadas em diferentes dispositivos (e-mail marketing, SMS, URA e WhatsApp); 
  • multimeios de comunicação; 
  • call center humanizado. 

Dicas para reduzir a inadimplência 

Além das inúmeras questões pessoais e socioeconômicas que levam à inadimplência, também é comum serem encontrados problemas administrativos nos setores financeiros das IES. Listamos aqui boas práticas que podem contribuir para melhor fluxo de caixa. Confira: 

Facilite o recebimento da mensalidade 

Possibilite que o aluno pague as parcelas por diferentes canais. Boletos aceitos em todos os bancos, pagamento na própria instituição, envio do código de pagamento via SMS são alternativas. 

Crie programas de descontos para pagamento adiantado ou integral 

Estipule diferentes datas de vencimento para o pagamento. Quanto mais cedo o aluno pagar a mensalidade, maior será o desconto. Estabeleça preços especiais para quem quiser pagar o valor integral do período cursado. 

Utilize diferentes canais para avisar do vencimento 

Use os recursos tecnológicos e dispositivos possíveis para avisar da data de vencimento da mensalidade (SMS, e-mail, WhatsApp, por exemplo). 

Renegocie dívidas 

Ofereça opções de negociação das mensalidades pendentes. Antes de realizar protesto, dê opções de pagamento dos valores atrasados. Parcelamento das parcelas, com assinatura de confissão da dívida são opções para reduzir a resistência ao pagamento. 

Gere boletos automaticamente 

Se o pagamento está atrasado, e o aluno precisa do boleto, gere-o de forma automática, já com juros e multas calculados. Utilize canais para informar que o novo boleto foi gerado. 

Separe os alunos em grupos 

Conheça o perfil socioeconômico dos alunos. Assim, é possível identificar quem paga as mensalidades sozinho ou depende dos pais e, ainda, os alunos que atrasam constantemente ou esporadicamente, entre outros perfis. 

Utilize meios legais para evitar o prolongamento da dívida 

Em último caso, inclua o nome do inadimplente no SPC ou Serasa. Às vezes, basta o aviso de negativação do nome para que o aluno pague o que deve. Além disso, esteja atento às leis que protegem as IES de manter alunos inadimplentes estudando na instituição. 

Para evitar que o fluxo de caixa da sua instituição fique em desequilíbrio por conta de mensalidades em atraso, entenda um pouco mais sobre gestão de cobranças e inadimplência na instituição de ensino superior conhecendo estratégias de gestão acadêmica para melhorar seus resultados financeiros. 

Transformações da educação superior e as práticas docentes

A concorrência é acirrada: alunos munidos de smartphonestablets e notebooks de alto desempenho, em meio a notificações das redes sociais e aplicativos que controlam cada atividade do dia. Diante da sala, professores universitários tentam estimular o interesse dos discentes, mas sentem que lhes faltam ferramentas necessárias para aproximar o aluno do conhecimento transmitido. 

Além disso, com acesso imediato à informação, os conteúdos curriculares teóricos ministrados em aulas expositivas tornam-se um pesadelo para o aluno que as considera “do século passado”. 

Temos aqui um cenário real e factível: 

a) O perfil do estudante no contexto das TIC (tecnologias de informação e comunicação) reflete uma “pressa” de aprender: querem ter acesso ao conhecimento de maneira ágil, sem muito aprofundar em leituras que consideram “desnecessárias” e nesse processo, frente a milhares de outros estímulos tecnológicos, perdem o interesse pelas aulas, reduzindo o aprendizado a um nível raso e superficial. 

b)  A graduação e os cursos de pós-graduação que embasam a formação dos docentes no ensino superior têm se tornado insuficiente para desenvolver o repertório de atividades, avaliações e trabalhos conduzidos dentro e fora da sala de aula, diante do contexto de transformações do cenário escolar. Saber o conteúdo já não basta.  

Não há, de fato, uma receita de bolo para mudar completamente os fatores que têm causado esse desalinhamento entre a perspectiva aluno-professor. A boa notícia é que é possível reduzir essa distância de aprendizado. O que buscamos com esse texto é justamente indicar três caminhos que vão auxiliar os docentes a lidar com esse novo contexto de transformações no ensino superior.

O professor como mediador: uma mudança de mindset

O ensino tradicional tem sido marcado pela transmissão do conteúdo com um enfoque puramente informativo. Paulo Freire (1987), em sua conhecida obra Pedagogia do Oprimido, traz o conceito de educação bancária como a imposição ou o depósito do conhecimento realizado pelo professor sobre os alunos. Para Freire, a educação se torna libertadora na medida em que seja superada a contradição entre educador-educando, de forma que ambos se façam e se reconheçam como educadores e educandos. Essa relação entre teoria e prática é permanente e deve subsidiar a dinâmica humana da “ação-reflexão-ação” que possibilita a mudança transformadora em algum grau da realidade, por meio da ação mais consciente. 

O clássico modelo de aulas expositivas, em que se vislumbra um professor, detentor do conhecimento, e os alunos, ouvintes, meros receptáculos do conteúdo exposto, em um processo de pouquíssimo dialógico, ainda é uma constante no ensino superior. Em decorrência disso, o aluno tem se tornado um receptor passivo das informações que deve repetir de maneira literal nas avaliações de ensino. Nesse contexto, torna-se essencial ressaltar a importância do papel do professor como mediador do conhecimento na relação com os alunos, e não mais os de “donos” do saber. 

Nessa seara, a mudança de mindset é importante para que o aluno esteja no centro do processo de aprendizagem, de forma que o professor promova sua participação contínua, contribuindo na indicação de informações de qualidade para o estudante que está rodeado de vários conteúdos.  

O desenvolvimento de habilidades: por que isso é importante?

Além de compreender o seu papel de mediador no processo de ensino e aprendizagem, o docente deve buscar orientar suas aulas em desenvolver determinadas habilidades em seus alunos, muito mais do que se preocupar em transmitir a totalidade dos conteúdos previstos nos programas pedagógicos.  

Isso porque o contexto de transformações pelo qual passa o cenário mercadológico e o exercício das profissões têm revelado que o egresso deve ser adaptável a esse contexto de mudanças velozes e que estará mais bem preparado se tiver desenvolvido skills, do que ter decorado todos os conceitos teóricos do curso. Desenvolver habilidades é um desafio para a educação superior de uma forma geral, que não deve ser desconsiderado no processo de aprendizagem. 

Além disso, as avaliações externas como o ENADE, por exemplo, têm seus itens elaborados no intuito de verificar se determinadas competências, previstas para o perfil do egresso no curso superior foram, de fato, desenvolvidas. Os itens buscam ser interdisciplinares e não questionam dados memorizados ao estudante, de modo que os conteúdos são trabalhados como instrumento para a resolução do item, em que o seu conhecimento puro e simples não é suficiente para resolver a questão, na qual são exigidas operações mentais mais complexas, como reflexão crítica e análise de situações práticas.  

Diante deste cenário de intensas transformações, o World Economic Forum (WEF) apresentou em 2018 um estudo bastante aprofundado sobre o futuro das profissões no mundo, o “The Future of Jobs Report”, de modo que o relatório expõe as diversas transformações da força de trabalho ao longo dos últimos anos, bem como a necessária janela de mudança que deverá envolver governos, instituições públicas e privadas e os trabalhadores a partir dos avanços tecnológicos da chamada “Quarta Revolução Industrial.” 

Assim, foi apresentada uma lista de habilidades que deveriam ser desenvolvidas até o ano de 2022 para atender às expectativas do futuro do mercado de trabalho em diversas áreas do conhecimento: 

Essas habilidades demonstram o quão relevante é investir em práticas docentes e atividades que estimulem o seu desenvolvimento. Elas promovem o pensamento crítico e analítico e a necessidade de resolver problemas complexos. Além disso, demonstram a necessidade de incluir o aluno no processo de aprendizagem de maneira ativa, por meio da criatividade e iniciativa. 

Como despertar o interesse no aluno?

Mediar o conhecimento e desenvolver habilidades só será efetivo se houver um elemento muito importante dos alunos: o desejo de aprender. 

O interesse estudantil, baseado no “querer”, é um elemento essencial para que o aprendizado ocorra. Não basta ter um professor disposto a ensinar, é necessário despertar o desejo nos ouvintes. E a solução é uma só: trazer o conteúdo teórico para a realidade prática dos estudantes. 

Chamar a atenção dos alunos não exige teatro ou stand-up, mas uma conexão entre o que se fala e o que se vive. A conexão da teoria conteudista e a vivência dos conceitos na realidade promovem um aprendizado natural, baseado em experiências sensoriais que fixam o aprendizado de maneira duradoura. Mas como fazer isso? 

Em primeiro plano, é preciso esclarecer que a aula teórica é importante, sim! Não será possível promover dinâmicas, atividades e metodologias inovadoras com estudantes que não têm aporte teórico sobre os conteúdos ministrados nas disciplinas. 

Os conteúdos devem ser trabalhados em sala de aula de maneira didática, explicativa, e minuciosa em um primeiro momento, com atividades de fixação.  

Em um segundo momento é preciso promover atividades que permitam ao aluno estar no centro do processo de aprendizagem, de modo que ele se sinta agente do seu processo e não apenas o receptor das informações postas. Para isso é indicado o desenvolvimento de novas metodologias de ensino, chamadas “metodologias ativas” com recursos didáticos inovadores, que propõem uma nova perspectiva de learning, para o aluno e para o professor. 

Diante deste cenário de transformações na educação superior, movidas pelas TIC (tecnologias de informação e comunicação), é preciso que os três pilares descritos sejam trabalhados conjuntamente na sala de aula: o papel do professor deve ser alinhado com uma mudança de mindset: de “dono” a “mediador” do saber, as práticas docentes devem estar consonantes a um aprendizado baseado no desenvolvimento de habilidades nos estudantes e o aluno deve ser trazido para o processo de ensino e aprendizagem por meio da conexão entre o conhecimento teórico e a sua realidade prática. 

Alunos do ensino superior: perfil dos ingressantes e desafios para atendê-los

Perfil dos ingressantes no ensino superior: uma abordagem analítica

O ingresso no ensino superior brasileiro, seja em bacharelado, licenciatura ou tecnólogo, apresentou crescimento considerável nas últimas décadas. As matrículas na rede pública saltaram de aproximadamente 1,3 milhão, em 2007, para mais de 2 milhões, em 2017, segundo dados do Ministério da Educação (MEC). As instituições privadas também viram os números dispararem, já que, no mesmo período, seu número de alunos matriculados subiu de 3,6 milhões para 6,2 milhões. Essas instituições, só em 2017, concentraram mais de 80% dos alunos que ingressaram no superior em todo o país. Foi uma porcentagem semelhante ao número de matrículas totais naquele ano, uma vez que 75% estavam concentradas na rede privada. 

Diversos fatores estão envolvidos no crescimento desses números, como o aumento no número de instituições públicas do país e no número de oferta de vagas. Por outro lado, quanto às instituições privadas, programas, como o Universidade para Todos (PROUNI) e o Financiamento Estudantil (FIES), possibilitaram a uma grande parcela da sociedade a chance de ingressar no ensino superior, que, ao longo dos anos, tornou-se diferencial ou quase obrigatoriedade no currículo para inserção no mercado de trabalho. Tem-se também diversas Instituições de Ensino Superior (IES) privadas que, além de métodos de ingresso próprios, aceitam a nota do Enem como entrada. 

A análise de estudos, como o Censo da Educação Superior, divulgado anualmente pelo MEC, permite-nos um olhar detalhado sobre o perfil dos alunos matriculados e dos ingressantes no ensino superior. Além disso, o cruzamento com outros dados divulgados pelo governo, como Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), as notas para acesso ao PROUNI, ao FIES e ao SISU (Sistema de Seleção Unificado) e os indicadores da Pesquisa Nacional de Domicílios (PNAD), dá-nos mais insumos para entender a realidade dos graduandos brasileiros.

Idade, ocupação e turno 

Segundo dados referentes ao ano de 2017 e divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), após os jovens de 14 a 17 anos, a faixa etária com maior grau de desocupação entre as pessoas aptas ao trabalho, com cerca de 25% sem emprego, é composta por aqueles que têm entre 18 e 24 anos. Dentre os motivos apontados para esse alto percentual, estão a falta de experiência exigida pelo mercado de trabalho e a falta de formação acadêmica. No entanto, os dados do Censo da Educação Superior de 2017, o último divulgado pelo MEC, mostram que, também naquele ano, dos alunos matriculados no ensino superior, metade tinha entre 18 e 24 anos. Ou seja, trata-se justamente da parcela da população que busca o aprendizado de uma profissão para entrada no mercado de trabalho. 

Outro dado relevante, possível de ser visualizado a partir dessas correlações de indicadores, é que, dentre esses jovens de 18 a 24 anos matriculados no ensino superior, mais de 70% estavam associados a alguma IES privada. São os alunos que ingressaram na graduação por meio dos programas citados (PROUNI e FIES) ou dos métodos de entrada aplicados pelas instituições (vestibular, seleção pela nota do Enem etc.) e que, portanto, têm sob sua responsabilidade arcar com os custos do curso, integralmente ou com auxílio de bolsas. Assim, os 3 milhões de jovens dessa faixa etária que, em 2017, estavam matriculados no ensino superior e que representavam a faixa com maior índice de desocupação no mercado de trabalho, são justamente aqueles que mais dependem de uma renda fixa para bancar seu estudo. 

Há outros indicadores que corroborem essa situação? No mesmo censo, há dados sobre o número de matrículas nos cursos de graduação por turno. Nas IES públicas, aproximadamente 64% dos alunos estavam matriculados no período diurno, enquanto os restantes frequentavam o noturno. Os números indicam que apenas 1/3 estava vinculado ao período noturno. A situação, quando o foco passa a ser IES privadas, é completamente diferente. Nelas, 69% dos alunos estava vinculado ao período noturno, o que representava mais de 2/3 dos estudantes totais. Esses números, associados aos dados da PNAD, os quais indicavam em 2017 que cerca de 90% dos postos de trabalho no país estão distribuídos entre 5h e 22h, fortalecem a conclusão apresentada anteriormente. 

Também de acordo com o MEC, as idades médias de ingresso são 21 anos para aqueles que operam pelo ensino presencial e 28 anos para os que optam pelo ensino à distância (EaD). Entre 2007 e 2017, os cursos à distância viram o número de alunos saltar de aproximadamente 300 mil alunos para quase 1,8 milhão, sendo que mais de 90% das vagas estavam vinculadas a instituições privadas.  

Millennials e geração Z 

Tecla a tecla, as informações sobre uma criança foram digitadas, e numa tela de computador iam sendo imediatamente visualizadas pela funcionária do hospital responsável pelo registro de nascimento dos novos bebês. O ano era 2001, e a humanidade entrava no terceiro milênio da era cristã. A partir desse dia, essa criança esteve rodeada por tecnologias: seus pais orgulhosos fizeram fotos e vídeos, primeiro em câmeras digitais e depois em smartphones, a cada etapa vencida por ela (a primeira palavra, o primeiro passo, o primeiro dia na escola, a primeira vez que escreveu etc.); prontuários pediátricos e boletins escolares foram registrados nos sistemas de hospitais e escolas; jogos multiplayer foram desbravados, e redes sociais frequentadas. Hoje, o bebê do milênio faz a inscrição para o vestibular ou Enem e aguarda o dia de matrícula online na instituição na qual iniciará sua graduação. 

A grande exposição às tecnologias da informação e comunicação (TICs) e a facilidade de acesso à informação fazem das gerações de millennials (ou geração Y) e da geração Z um grupo de jovens acostumados ao ritmo acelerado do mundo atualmente. Tomar um ônibus e seguir ao Centro da cidade para realizar pesquisas na biblioteca pública não é mais uma realidade dos alunos de qualquer nível. Basta alguns cliques, para que os variados mecanismos de busca da internet mostrem dezenas de milhões de resultados relacionados a uma busca. Essas facilitações otimizam os processos, mas trazem consigo efeitos colaterais com relação ao comportamento das pessoas. A dificuldade de concentração é uma das principais consequências da imersão no mundo tecnológico, o que acarreta a impaciência e a necessidade de se resolver as coisas cada vez mais rápido. Nesse sentido, torna-se um desafio garantir o engajamento dos estudantes. 

Como observado a partir dos dados anteriormente analisados, os alunos do ensino superior no Brasil não têm apenas as atribuições da faculdade como responsabilidades diárias. Eles conciliam o trabalho com o estudo, e o fazem muitas vezes por necessidade. Por isso, é preciso que os modelos de ensino-aprendizagem sejam bem pensados. Os cursos à distância dispararam no país diante dessa realidade. Apenas aulas tradicionais, com professores sendo vistos como transmissores de conhecimento e alunos como meros receptores, não são mais suficientes. É preciso se valer da fome de conhecimento, do interesse pela tecnologia, da necessidade de resposta imediata e da abertura à flexibilização dessas gerações para compor com elas um novo cenário de ensino que proporcione a apreensão do conhecimento de forma concreta e prazerosa. Entretanto, antes disso, é essencial atentar-se a um terceiro ponto. 

O ensino básico 

É extremamente importante que as IES públicas e privadas pensem em como aprimorar continuamente seu processo de ensino-aprendizagem. Levando isso em conta, adicionar à equação as experiências e o conhecimento anteriores do aluno é preciso. Seguindo a análise com dados oficiais de 2017, o Saeb daquele ano indicou que apenas 1,62% dos alunos que cursavam o terceiro ano do ensino médio apresentavam os níveis indicados como adequados pelo MEC em Língua Portuguesa. Em Matemática, 4,52% apresentavam esses níveis.  

Diante desse cenário, a defasagem dos alunos ingressantes no ensino superior deve ser um ponto de cuidado das IES, sobretudo nas privadas. Programas públicos de ingresso, como PROUNI e FIES, demandam que os alunos apresentem médias no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de no mínimo 450. Esta é uma média baixa, mas a situação pode se mostrar ainda mais preocupante, quando se leva em conta que algumas instituições privadas indicam médias menores como requisito de entrada, ou mesmo aplicam testes muito simples para ingresso. Ou seja, não há um filtro que garanta que todos aqueles que iniciam a graduação apresentam o nível básico necessário para bom desempenho no curso. 

Para saber mais 

Como pode-se perceber, há muitos fatores a serem levados em conta se espera-se entender o perfil dos ingressantes no ensino superior, ou mesmo do conjunto total de alunos matriculados. A Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) realiza um amplo estudo a respeito do perfil socioeconômico e cultural dos estudantes de graduação nas instituições federais. A associação desenvolve atualmente um novo estudo, ainda sem previsão de divulgação. A IV Pesquisa, e última divulgada, em 2014, apresenta números interessantes no que diz respeito à renda dos estudantes, à cor, à idade, ao gênero e muitos outros dados que valem a pena ser conhecidos.

Entender o perfil e os anseios do público que se acolhe em sua instituição é indispensável quando se deseja oferecer o melhor serviço e as melhores condições de aprendizado e desenvolvimento.

ENADE 2019: prova, cursos e tendências

Criado em 14 de abril de 2004 pela Lei 10.861 para substituir o antigo Exame Nacional de Cursos, conhecido como “Provão”, o ENADE (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes) visa mensurar a qualidade dos cursos e das instituições do país, sendo utilizado tanto para o desenvolvimento de políticas públicas para a Educação Superior quanto como fonte de consultas pela sociedade.  

Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP), a prova constitui-se como  “insumo fundamental para o cálculo dos indicadores de qualidade da educação superior: Conceito Enade, Conceito Preliminar de Curso (CPC) e Índice Geral de Cursos Avaliados da Instituição (IGC), todos normatizados pela Portaria Normativa GM/MEC nº 840, de 24 de agosto de 2018”. Em suma, o resultado dos alunos na prova é o que define a nota da instituição perante ao MEC, podendo esta nota variar de 1 a 5. 

Apesar de inquestionavelmente importante, a cada ano o ENADE traz novas peculiaridades. Nesse texto você vai saber um pouco mais sobre como o ENADE 2019 será organizado e como já começar a se preparar para a tão sonhada nota 5! 

Cursos participantes do ENADE em 2019

A cada ano, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP), responsável pelo Sistema de Avaliação do Ensino, juntamente com o Ministério da Educação, definem as áreas que serão avaliadas pelo ENADE. Isso significa que não são todos os cursos que realizam o ENADE a cada ano: a periodicidade máxima com que cada área de conhecimento é avaliada é trienal, de modo que, se um curso participou da prova em 2015, por exemplo, só em 2018 a turma do último ano deste curso participará novamente, obrigatoriamente. 

Existem três grandes áreas que podem ser alocadas para avaliação no ENADE, descritas detalhadamente na tabela abaixo:

O ENADE 2019 surpreendeu com a alocação de cursos, uma vez que a retrospectiva histórica de avaliação indicava que os cursos avaliados seriam apenas os da área 1: 

  • 2013: foram avaliados cursos da área 1; 
  • 2014: foram avaliados cursos da área 2; 
  • 2015: foram avaliados cursos da área 3; 
  • 2016: foram avaliados cursos da área 1; 
  • 2017: foram avaliados cursos da área 2; 
  • 2018: foram avaliados cursos da área 3;

Porém, o ENADE 2019 contemplará, além dos cursos da área 1, os cursos de bacharelado da área 2.

Estrutura da Prova 

A probabilidade é que a prova do ENADE 2019 siga o mesmo formato das edições anteriores, sendo dividida, portanto, em duas grandes partes: Formação Geral (comum a todos os participantes) e o Componente Específico.  Em cada uma dessas partes ainda temos avaliações específicas, fazendo com que a prova fique dividida da seguinte maneira: 

  • 2 questões discursivas de conhecimentos gerais — peso de 10% do total da prova; 
  • 8 questões objetivas de conhecimentos gerais — peso de 15% do total da prova; 
  • 2 questões discursivas de conhecimentos específicos — peso de 11,25% do total da prova; 
  • 27 questões objetivas de conhecimentos específicos — peso de 63,75% do total da prova; 
  • 9 questões sobre o nível de dificuldade da prova — não conta como critério de avaliação. 

Vale ressaltar que, para os cursos de Engenharia, as seis (6) primeiras questões objetivas de conhecimento específico configuram-se como conteúdos do Ciclo Básico de Engenharia, sendo, portanto, comum a todas. 

Como iniciar a preparação o quanto antes

Os estudantes que farão o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (ENADE) em 2019 podem consultar os conteúdos que serão avaliados em cada um dos cursos após a liberação das portarias normativas pelo site do INEP.  As portarias normativas abordam os perfis, as competências e os conteúdos que serão avaliados em cada curso naquela edição do exame. A referência do perfil do concluinte aborda as características e habilidades a serem cobradas nas questões, enquanto os conteúdos contemplam os possíveis assuntos das mesmas. 

Enquanto as portarias de 2019 não são disponibilizadas, uma boa opção é entender o perfil das Comissões Assessoras de Área para as áreas avaliadas no ENADE 2019. Os membros que constituirão a comissão de cada curso estão descritos na portaria nº 151, de 28 de fevereiro de 2019, também disponível no site do INEP. 

Agora que você já sabe como funciona o ENADE 2019, que tal já ir preparando sua IES para a tão sonhada nota 5? O exame deve acontecer no segundo semestre de 2019, mas é de fundamental importância que a preparação comece o quanto antes. Quer saber mais sobre como a Saraiva Educação pode auxiliar na preparação da sua IES para o ENADE? Clique aqui!