Como desenvolver atividades para alunos com dislexia?

A dislexia é um transtorno de aprendizagem que pode impactar - e muito - a qualidade do ensino em sua IES. Saiba como desenvolver atividades para estudantes com dislexia neste artigo!
Atividades para alunos com dislexia: fotografia e estudantes em uma sala de aula, foco em uma estudante sorrindo para a câmera.

Apesar do mito que diz que dislexia é uma condição que aparece somente na infância, os estudantes que lidam com esse transtorno de aprendizagem também estão no ensino superior. As atividades para alunos com dislexia exigem um entendimento da condição por parte dos docentes.

Por isso, é fundamental esclarecer as dúvidas frente à dislexia, desmistificar os estereótipos e oferecer ferramentas para que as salas de aula sejam mais receptivas e inclusivas nas instituições de educação superior (IES).

Índice

O que é dislexia?
Como trabalhar com alunos disléxicos?
Como melhorar a acessibilidade no ensino superior?

O que é dislexia?

A dislexia é um transtorno de aprendizagem que faz com que a pessoa tenha dificuldade na leitura de material escrito. Pode se apresentar em diferentes graus e afetar áreas como ortografia, leitura em voz alta, gramática, mistura de informações e dificuldade geral em processar conteúdo.

É um transtorno do neurodesenvolvimento, ou seja, as condições fisiológicas afetam a forma como as informações são difundidas pelo sistema nervoso central. Por alteração nos neurotransmissores (moléculas que permitem a passagem de sinais de um neurônio a outro), a pessoa enfrenta dificuldades em compreender o que lhe é apresentado de forma escrita.

O CID-10 classifica a dislexia como um prejuízo na compreensão escrita que não pode ser explicado por dificuldades acadêmicas, transtornos emocionais, deficiência visual ou outros fatores. Também não pode ser considerada uma falta de inteligência: não é que o aluno não compreende o assunto, mas tem dificuldade de ler e escrever sobre ele.

Entre os principais efeitos visíveis da dislexia estão a troca de sílabas, letras e fonemas. O disléxico apresenta dificuldade em relacionar a grafia aos sons, além de ter problemas com ortografia e gramática. Confundir letras simétricas, como b e d, ou confundir palavras similares são casos comuns.

Também podem surgir sinais como dificuldade na fluidez da leitura (principalmente em voz alta) e escrita, além de sinais menos reconhecidos, como baixo vocabulário, frases pouco claras, “comer” palavras e até alterar sua ordem.

Em geral os sinais surgem no início da vida escolar, mas os sintomas perduram na vida adulta, principalmente se não houver intervenção terapêutica prévia. Como a leitura se mostra essencial para o aprendizado, o aluno disléxico frequentemente lida com dificuldades acadêmicas, mesmo que demonstre conhecer o que é estudado.

Nos adultos, existem alguns sintomas como dificuldade em anotar informações, seguir instruções, gerir o tempo e planejamento de tarefas, o que prejudica não só o ambiente de estudos, como outras áreas da vida do paciente.

Isso faz com que o aluno tenha lacunas de aprendizado durante a vida, o que afeta seu desempenho, além de dificuldades com atividades, entre elas provas cronometradas e trabalhos escritos. Isso afeta a saúde mental do aluno e contribui para a evasão escolar.

Além disso, o mito de que o aluno disléxico é apenas preguiçoso persiste: infelizmente muitas instituições de ensino não oferecem o apoio necessário ao desenvolvimento cognitivo dos alunos com transtornos de aprendizagem. O baixo rendimento é atribuído a desleixo e falta de foco, enquanto, na verdade, está ligado à forma de processar incompatível com a forma de ensino.

O que causa a dislexia?

A dislexia é um transtorno multifatorial, assim como os outros transtornos do neurodesenvolvimento. 

Hoje, acredita-se que a formação do cérebro ocorre de forma diferenciada e que a condição é hereditária. De acordo com pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Dislexia, o fator genético afetou 84% dos entrevistados.

Como é feito o diagnóstico da dislexia?

O diagnóstico da dislexia deve ser feito por uma equipe especializada, de preferência multidisciplinar. Como é uma condição que afeta diferentes partes da vida, é importante ter avaliação psicológica, pedagógica, neurológica, fonoaudiológica, entre outras.

Por meio de avaliações da linguagem, testes e questionários, envolvendo o paciente e relatórios de familiares e educadores, a equipe irá investigar habilidades e dificuldades na compreensão de texto. De acordo com o Instituto ABCD, as habilidades são:

  • Consciência fonológica – habilidade para reconhecer e manipular sons da língua falada.
  • Memória fonológica – habilidade para lembrar e utilizar sons, sílabas e palavras.
  • Nomeação automática rápida – habilidade para nomear objetos, cores, letras e dígitos de forma rápida.
  • Vocabulário receptivo – compreensão de palavras ouvidas.
  • Associação fonema-grafema  – compreensão da relação entre os sons e seus símbolos (letras e sequências de letras).
  • Decodificação – habilidade para utilizar as associações entre sons e letras a fim de identificar e pronunciar palavras escritas.
  • Leitura oral fluente – habilidade para ler de forma correta, com fluência e entonação apropriada, facilitando a compreensão.
  • Compreensão leitora – competência de interpretar e compreender informações de um texto escrito.
  • Soletração e ortografia.
  • Escrita.

Com essas informações, os profissionais elaboram um laudo diagnóstico, que servirá como norteador das dificuldades do paciente. Por meio dele, é possível oferecer o acompanhamento adequado para lidar com as dificuldades e solicitar, no caso de estudantes, apoio das instituições de ensino. Dessa forma, as atividades para alunos com dislexia levarão em conta suas limitações e capacidade.

Quais são os tipos de dislexia?

Existem três tipos principais de dislexia e cada um deles tem suas especificidades. A dislexia visual é a forma que apresenta dificuldades na leitura de textos. A má visualização de palavras e letras leva a erros como confundir a ordem de cada informação, ler ao contrário, confundir letras parecidas como m e w, entre outras.  

Já no caso da dislexia auditiva, o processo acontece de forma mais pronunciada nos textos orais e diálogos. O estudante não faz associações corretas entre fonemas, sílabas e seus respectivos sinais na escrita. Pode ter dificuldade em anotar conteúdos dados em aula, ler em voz alta e soletrar, por exemplo.

É comum, porém, que disléxicos encontrem dificuldades tanto na compreensão visual quanto auditiva da leitura e escrita, conhecido como dislexia mista. O efeito é um embaralhamento de informações, o que prejudica o acompanhamento do conteúdo, a realização de provas e a participação em atividades pedagógicas.

Como trabalhar com alunos disléxicos?

Apesar das dificuldades enfrentadas pelos estudantes que têm dislexia, muitos lidam com profissionais da educação que não têm o conhecimento adequado. As consequências são instituições de ensino menos inclusivas e preparadas para atender a diferentes demandas de aprendizado.

Isso porque as atividades para alunos com dislexia devem levar em conta as barreiras para o processamento de informações que esses alunos apresentam, não forçá-los a contrariar suas tendências.

Por exemplo, muitas vezes os alunos precisam reler o conteúdo de livros didáticos ou apresentações realizadas por professores em aula, o que leva mais tempo do que um aluno que não seja disléxico. 

Outros podem misturar informações e não ter clareza na expressão quando respondem a perguntas de avaliação por escrito, demoram a realizar provas porque precisam de tempo extra para entender as perguntas e até há casos em que cometem erros simples por conta do processamento diferenciado.

Nesse contexto, repensar as atividades para alunos com dislexia é uma forma de incluí-los de forma mais produtiva no ambiente de estudos, o que não só faz com que retenham melhor o aprendizado, como contribuam para a difusão de informações em sala.

Para simular os efeitos da dislexia, profissionais criaram uma ferramenta que mostra as dificuldades de ler com o transtorno (em inglês).

As avaliações para o aluno com dislexia

Uma das grandes dificuldades de alunos com dislexia, principalmente no ensino superior, é que as formas de avaliação exigem o processamento de informação com fluidez, tarefa que é impedida pelo transtorno.

Confundir letras e sinais gráficos, pular palavras e a velocidade das informações pode atrapalhar muito o desempenho, mesmo que o aluno tenha estudado. Por isso, é importante que as avaliações levem essas limitações em conta.

Em primeiro lugar, uma técnica adotada no ensino básico que pode transformar a experiência do ensino superior é garantir um tempo extra para a realização de atividades escritas. Torná-las menores também pode ajudar, além de colocar o aluno em um ambiente mais quieto, em que ele possa se concentrar mais. 

Estratégias que auxiliem o aluno a não confundir o conteúdo, como uso de uma régua para acompanhar as linhas de texto, calculadora para evitar confusão de sinais de operações em provas de exatas e evitar enunciados longos demais também podem ser ideias úteis.

Se possível, realizar avaliações orais. Se não for viável eliminar as escritas por completo, o ideal é adotá-las juntamente com outras formas de avaliação. Um aluno que tem dificuldade em expressar as informações em um trabalho escrito pode se destacar em seminários ou atividades de debate, por exemplo.

Um projeto pedagógico que envolva diferentes técnicas de avaliação contempla as diferentes formas de aprender e de difundir conhecimento, o que torna o ambiente educacional mais rico.

A atitude do professor perante à dislexia

Mas, além da adaptabilidade do aluno e da IES, é importante que os docentes estejam alinhados à missão de realizar atividades para alunos com dislexia que contemplem suas necessidades.

Com o avanço dos métodos de docência e de metodologias ativas, existem novas possibilidades para os alunos, inclusive os alunos com dislexia. Nesse contexto, uma IES preparada para dar o protagonismo ao corpo discente também é mais funcional para os disléxicos.

A aprendizagem baseada em projetos, por exemplo, pode ser uma boa oportunidade de o aluno se sentir à vontade, desde que compreenda corretamente as instruções. Em qualquer atividade, é essencial que o docente fale com clareza e explique todos os passos, tendo certeza de que o aluno consegue colocar as ideias em prática.

Em relação ao conteúdo, é fundamental que o aluno tenha tempo para anotá-lo e tenha fácil acesso às informações. Slides passados rapidamente, por exemplo, não vão ajudar, mas o docente pode disponibilizá-los por meio do Ambiente Virtual de Aprendizagem, para que o aluno possa acessar mais tarde.

Uma ideia que auxilia muito na elaboração de atividades para alunos com dislexia é contar com o avanço tecnológico e uso de ferramentas multimídia de aprendizado: além dos livros de referência, as bibliografias podem lançar mão de filmes, podcasts, vídeos e outras formas de explicar o conteúdo visto em aula. 

A interatividade e a gamificação do aprendizado também facilitam a participação dos alunos disléxicos: se eles se sentem motivados a contribuir, mesmo que de forma não tradicional, se engajam mais com o conteúdo e, consequentemente, absorvem melhor as aulas.

Para que isso ocorra, é importante que os docentes tenham em mente que o aluno disléxico está apto para aprender, desde que sua diferença cognitiva seja respeitada. Caso não seja, ele pode ter falta de confiança em seu conhecimento e desempenho.

Leia também: O que é e como aplicar as estratégias da Taxonomia de Bloom no ensino superior?

Dicas e estratégias para elaborar atividades para alunos com dislexia

Existem alguns princípios que devem ser levados em conta ao tornar o aprendizado mais acessível e respeitoso ao aluno disléxico. O CIPAS (Centro Interdisciplinar de Pesquisa e Atenção à Saúde), orgão da UFRGS, orienta docentes a:

  • não permitir que o aluno seja ridicularizado pelos erros ortográficos que são inevitáveis;
  • não solicitar que leia em público em voz alta. Quando isso for absolutamente necessário, fornecer, antecipadamente, uma cópia do material a ser lido para que ele se familiarize com o texto;
  • oportunizar local tranquilo para realizar trabalhos escritos;
  • avaliá-lo preferencialmente pela modalidade oral;
  • não reprová-lo por dificuldades em língua estrangeira;
  • oferecer mais tempo para as tarefas curriculares e avaliativas.

Para os alunos disléxicos, a leitura e a escrita comprometidas significam pouca absorção e aproveitamento do conteúdo que encontram de forma escrita. Com algumas mudanças, os textos adotados em sala de aula (online e ao vivo) podem se tornar mais acessíveis. Confira algumas dicas:

  • Linguagem clara e direta: evite uso de metáforas e simbolismo confuso
  • Parágrafos: evite parágrafos longos e insira respiros no conteúdo
  • Hierarquização: diferencie títulos, intertítulos, texto corrido, coloque palavras-chave em negrito, etc
  • Tamanho do texto: não use texto pequeno demais e evite usar caixa alta além de termos que devem ser destacados
  • Fontes: as letras separadas são mais fáceis de serem lidas, o que evita confusões. Opte por fontes sem serifa (Arial, Helvetica, Calibri) e, quando escrever à mão, evite cursiva 
  • Contraste: evite textos pretos em fundos brancos, já que isso aumenta a percepção de letras “saltando”. Opte, se possível, por tons de cinza. Evite também cores muito próximas entre o fundo e o texto
  • Alinhe o texto à esquerda: o leitor disléxico, quando vê um texto que enche a página, nota os espaços irregulares. Isso faz com que se perca na leitura
  • Adicione imagens, listas e outros recursos visuais

Como melhorar a acessibilidade no ensino superior?

Uma das razões que impedem a democratização do ensino superior e a permanência dos alunos, em especial alunos de grupos marginalizados, é a falta de acessibilidade das instituições. Isso inclui alunos com deficiências físicas, alunos de minorias sociais, alunos de baixa renda, de zonas rurais e também alunos com transtornos de desenvolvimento. 

O educador que elabora atividades para alunos com dislexia, portanto, é um educador que trabalha ativamente na construção de um ensino mais igualitário. Assim, é uma forma recorrente de possibilitar o acesso ao conhecimento. 

Quanto mais alunos, em suas diferentes formas de aprendizagem, se veem dentro dos ambientes acadêmicos, mais vivências diversas fazem parte da produção de novos conhecimentos. 

Alunos mais diversos tornam a IES mais diversa e isso se reflete na ampliação da produção cultural e científica. Todo o conhecimento é levado para fora da instituição, nos caminhos profissionais que os egressos seguem, o que por sua vez contribui para sua difusão perante a sociedade.

Esperamos que você esteja mais preparado para elaborar atividades para alunos com dislexia! Aproveite também para conferir nosso artigo sobre como promover a inclusão de estudantes com deficiência no ensino superior!

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