Educação antirracista: fotografia de dois estudantes utilizando o computador.

Entenda o que é e como construir uma educação antirracista

A cultura racista a que estamos expostos tem sido discutida há mais de um século no país. Apesar de a escravidão ter sido legalmente abolida do Brasil em 1888, os desdobramentos do tráfico negreiro e das transformações sociais a partir da chegada dos povos africanos é parte do nosso dia a dia até hoje.

Para além dos belíssimos traços culturais, religiosos e gastronômicos incorporados pelos povos africanos, é preciso entender que a sua vinda para o Brasil não parte de uma decisão autônoma, mas de uma imposição violenta, promovida por uma intensa atividade econômica, da venda de pessoas como itens servis.

Uma relação assim tão assimétrica, entre pessoas brancas e negras, deixou marcas inegáveis na nação. A abolição da escravidão não contemplou projetos de integração de ex-escravizados na sociedade, e consequentemente permaneceu o estigma do povo preto como algo diferente do humano

Mais de um século depois, pessoas negras sofrem, em diversos espaços, ações de segregação e humilhação, pelo simples fato de a cor de sua pele remeter a uma série de estigmas sociais e ideias sobre padrões comportamentais. 

O racismo é parte da narrativa de quem acredita na hierarquia entre pessoas a partir do seu tom de pele, e que reproduzem determinados comportamentos racistas, pela incorporação dessas práticas na nossa educação, que se dá em casa e nos outros espaços sociais que frequentamos. 

Um desses espaços, que inclusive está inserido formalmente em uma perspectiva de formação de pessoas, são as instituições escolares. Sejam escolas de ensino básico, técnicas ou instituições de educação superior (IES),  as pautas antirracistas podem, e devem, fazer parte do processo formativo. 

É preciso entender que, como um local de convívio das diferenças, os centros educacionais devem promover a compreensão dessas diferenças e combater quaisquer tipos de discriminação, incluisve as raciais, que povocam enormes feridas nas pessoas expostas a esse tipo de prática criminosa. 

Se por um lado o racismo está enraizado nas estruturas da sociedade, a educação antirracista pode agir como um passo importante para nos libertar de preconceitos e promover debates necessários entre as pessoas, para que possamos entender porque repetimos esses comportamentos e como podemos combatê-los. 

Vontade e intenção devem fazer parte desse processo, para que as IES consigam estruturar uma proposta pedagógica antirracista. Para promover relações igualitárias, sem estigmatização do potencial intelectual a partir da cor de pele, é preciso firmar um compromisso com essa pauta.

Continue essa leitura para saber mais sobre educação antirracista e como as IES podem trabalhar como aliadas da promoção de igualdade!

O que é educação antirracista?

Para promover uma educação comprometida com todas as pessoas, independente da cor da pele, é preciso entender que apesar de buscarmos a igualdade, neste momento não somos todos iguais. Isso porque as oportunidades são muito diferentes para pessoas brancas e não brancas. 

Pode parecer óbvio, mas para estar alinhado a uma pauta antirracista, é preciso compreender que o racismo existe, faz parte de todos nós que estamos expostos a uma sociedade racista e precisa ser visto para ser combatido.

A educação antirracista é aquela que está comprometida com a abolição da ideia de inferioridade e superioridade de raças e que, além disso, entende e valoriza as diferenças. Para isso, promove discussões sobre o assunto em vários níveis e plataformas. 

A igualdade é sim uma meta da educação antirracista, desde que ela não venha acompanhada do apagamento da diversidade, das diferenças entre as pessoas, mas pelo contrário que ela seja alcançada por meio de esforços coletivos de igualar as oportunidades. 

A educação antirracista também precisa contemplar um grande nível de empatia, para acolher situações que geram desconforto para as pessoas não brancas e buscar soluções para os impasses que envolvam processos discriminatórios. 

É muito mais do que um planejamento, é ação. E entre essas ações, o direcionamento pedagógico também se faz necessário, com a inclusão contextual dessas pautas na formação dos alunos.

Uma educação significativa preconiza a instrução dos futuros profissionais com o olhar atento para os fenômenos da sociedade. Dessa forma, essas pessoas estarão mais preparadas para a vivência profissional, principalmente em ambientes de valorização da diversidade, como várias empresas têm tentado criar. 

Outro passo imprescindível para fomentar uma educação antirracista é apostar na formação de professores, em cursos de licenciatura disponibilizadas pelas IES. Um professor preparado pode quebrar círculos viciosos de discriminação, seja na educação básica ou superior. 

Apesar de uma proposta de educação antirracista não ser um trunfo das IES, e sim uma obrigação, esses espaços podem se tornar referência em justiça e acolhimento.

A educação antirracista tem como proposta a quebra de um sistema complexo, e para isso é preciso estar comprometido com a causa. As instituições devem trabalhar inspirando o mercado a seguir essa proposta. 

Fazer uma proposta pedagógica antirracista é romper com o silêncio sobre o assunto e debater temas que podem ser incômodos para aqueles que não acreditam nas desigualdades implicadas pela cor de pele. É romper barreiras dolorosas que abafam temas importantes. 

Se silenciar diante do racismo, num contexto educacional, é impedir que vários talentos consigam florescer nas mais diversas áreas, apenas pela não aceitação da cor de pele como condizente para aquela função. 

A educação antirracista trabalha a empatia, para evitar que as pessoas que sofrem racismo acabem se machucando e se fechando cada vez mais em todas as fases de vida. A baixa autoestima, sensação de não pertencimento, baixa participação nas atividades escolares podem ser efeitos da discriminação.

Isso reforça os estigmas de inferioridade intelectual, e contribui para a evasão escolar. Ao mesmo tempo, é comum que isso reforce nos alunos brancos, mesmo que de forma sutil,  a sensação de superioridade. 

A educação antirracista deve ser uma premissa de qualquer curso, seja da área de humanas, exatas, biológicas, das artes, etc. Falar sobre a dignidade humana e sobre igualdade de oportunidades sempre deve ter espaço em qualquer disciplina que lida com dilemas da humanidade.

Por que buscar uma educação antirracista?

Ainda não temos como saber 100% do que ocorre com as pessoas que sofrem discriminação racial, mas algumas pesquisas dão conta de que os efeitos nocivos dessas práticas podem ir muito além do que as pessoas imaginam. 

A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) foi responsável por um estudo que comprova a relação entre preconceitos sofridos e problemas de saúde, físicos e psicológicos. 

Pessoas que foram vítimas de discriminação possuem quatro vezes mais chance de desenvolver quadros de depressão e/ou ansiedade. Além disso, é possível traçar uma correlação com maior risco de picos de pressão, a partir da liberação de hormônios de estresse. 

Quem hostiliza também se expõe a uma situação de estresse, ou seja, o ódio só provoca efeitos nocivos, seja em quem pratica essas ações ou em quem é alvo delas. Apesar disso, é necessário reiterar que as vítimas de discriminação sofrem muito mais diante desses casos.

Quando falamos de racismo, não podemos separar um olhar estranho em uma loja de uma agressão diante de uma suspeita infundada de roubo, por exemplo. A população negra convive, diariamente, com o fim injusto de várias vidas de pessoas parecidas com elas mesmas.

Isso promove a sensação de medo e vigilância constantes. O acesso à saúde pública também se torna mais difícil. Uma herança do período da escravidão é a ideia de que pessoas negras suportam mais dor e são mais fortes e resilientes que as demais.

Com um atendimento mais precário e diante de problemas tão sutis quanto os de saúde mental, que podem ser confundidos com padrões comportamentais, pessoas negras estão sujeitas a lidar com grandes cargas de sofrimento, em silêncio. 

E por que esses dados são tão importantes para pensarmos uma educação antirracista? Porque as instituições de ensino, sejam de nível básico ou superior, são as que irão formar os profissionais do futuro.

Uma abordagem antirracista na educação tem impactos em todos os setores da sociedade, a partir da criação de um olhar empático para o sofrimento, do desenvolvimento do senso de justiça e da vontade de mudança das pessoas que buscam formação.

A possibilidade de transformação do mundo, por meio da educação, precisa sair da dimensão do discurso e atingir o nosso dia a dia, cada vez mais. E esse é um trabalho conjunto, que deve ser dividido entre toda a comunidade acadêmica.

Qual é o papel da IES na construção de uma educação antirracista?

A seguir, elencamos alguns pontos nos quais a sua IES pode atuar para construir uma educação antirracista. Confira!

1. Acolhimento

Para que as IES se comprometam com uma proposta educativa antirracista, é preciso que algumas ações sejam implementadas. A primeira delas diz respeito ao posicionamento da instituição

Se sua faculdade, universidade ou centro universitário não possui ações voltadas para mitigar processos discriminatórios, além de rever a postura, é preciso entender que há uma falha institucional e, portanto, a estratégia da IES deve estar alinhada à sua capacidade de oferecer um ambiente justo e seguro para todos. 

Isso porque, mesmo que você professor ou coordenador tente mudar a forma de atuar nesses casos, é necessário que haja um comprometimento a nível administrativo, institucional e operacional.

E para falarmos de uma educação mais inclusiva, que não reforça padrões de discriminação, é preciso que haja acolhimento institucional das demandas da comunidade acadêmica. E é aqui que se encontra um ponto chave da construção de um espaço seguro.

Quem é a minha comunidade acadêmica? Certamente você deve reconhecer que esse grupo é formado por muito mais do que discentes. É preciso que professores, funcionários da limpeza, portaria, administrativos e as pessoas da comunidade do entorno, sintam que a IES é um espaço que não compactua com processos discriminatórios. 

O acolhimento não é apenas uma boa atuação diante de casos de racismo, mas o compromisso da instituição de que esse tipo de comportamento não é tolerado. Campanhas educativas devem ser feitas durante todo o ano, não apenas em datas marcantes. 

2. Quebra de padrões

Como mencionado anteriormente, há certa dificuldade por parte da população na identificação de práticas racistas. Isso ocorre porque, no Brasil, há uma crença muito forte na democracia racial, ou seja, de que brancos e não brancos são iguais e possuem as mesmas oportunidades. 

Essa errônea ideia de igualdade e plena capacidade de ascensão social e econômica de pessoas não brancas nos faz reproduzir uma série de comportamentos meritocratas, que desconsideram as dificuldades impostas a parte da população, principalmente as pessoas negras. 

A quebra de padrões racistas precisa estar ancorada no projeto de gestão das IES. Com isso, é possível estabelecer diretrizes amplas de apoio a essa perspectiva, que vão desde o atendimento ao aluno, uso de materiais didáticos mais inclusivos, até formas de contemplar a valorização da diversidade no projeto de divulgação da IES.

3. Respeito à autopercepção da pessoa negra

Um fenômeno muito comum no Brasil é a dificuldade de parte da população em se autodeclarar negra. E essa é uma realidade que vem se transformando a partir do fortalecimento do movimento negro no país, das políticas identitárias, e da inclusão dessas pautas no dia a dia das pessoas.

Em cinco anos, entre 2012 e 2018, o número de pessoas autodeclaradas pretas e pardas no Brasil cresceu de 53,1% para 56,4%. O que explica isso não é o número de nascimentos, porque no mesmo período houve diminuição de pessoas autodeclaradas brancas. 

Mulheres negras são as principais vitimas de homicídio, sofrem mais violência no parto e os homens negros jovens também são parte preponderante das estatísticas de morte. Por mais que a autodeclaração não mude a cor da pele, muda a percepção de direitos, segurança, aceitação, entre outros. 

Para algumas pessoas o racismo deixou marcas, mas nunca foi um assunto discutido na família. Muitas delas notavam o tratamento distinto, mas não necessariamente vinculavam as vivências à cor da pele. 

 Muitas vezes chamadas morenas, ou mulatas, as mulheres negras por vezes alisaram os cabelos ou desejaram traços “mais finos”, mas seguiram sem compreender a gênese de seus pensamentos e da construção de sua autoestima. 

E qual o papel das IES diante disso? Ser um porto seguro para a descoberta e aceitação da identidade racial. As instituições precisam promover a pauta de igualdade, utilizar referências negras, para que haja um processo de identificação por parte dos estudantes.

Não falar sobre o racismo não diminui a dor de quem sofre. A promoção da autopercepção de forma natural e não estigmatizada pode ser um caminho para que a comunidade acadêmica não branca possa sentir pertencimento.  

4. Sensação de pertencimento

E por falar em pertencimento, como podemos criar um sentimento tão sutil, mas ao mesmo tempo tão potente, capaz de vincular pessoas e instituições? Para fazer parte, é preciso se sentir bem-vindo, e existem diversas ações que colaboram para que isso aconteça. 

Ter um corpo docente representativo demonstra aos alunos que outras pessoas negras conseguiram chegar em lugares importantes com a sua formação, apesar de todas as adversidades. Pessoas não brancas em cargos de destaque e liderança também podem surtir esse efeito.

Além disso, é reconfortante saber que existem pessoas que participam do seu processo formativo que compreendem as dificuldades inerentes a ser uma pessoa negra no Brasil. 

Já parou pra pensar quantas vezes, nas produções audiovisuais, nos deparamos com pessoas negras apenas representando cargos subalternos? Isso já melhorou ao longo dos anos, mas ainda enfrentamos situações inaceitáveis, como pessoas brancas representando personagens negros.

Pessoas negras devem ocupar, na ficção ou na vida real, espaços diversos, dos quais desejam participar. Existem excelentes profissionais que poderiam ter ainda mais destaque se a cor de sua pele, ou textura de seus cabelos, não fossem lidos como impeditivos para um potencial intelectual equivalente aos brancos

Essa presença de pessoas negras nas IES não diz respeito apenas à presença da comunidade acadêmica, mas também à organização do espaço. Quais imagens presentes nos corredores das IES, nas propagandas, nos quadros de avisos? Tudo isso cria um clima muito mais acolhedor.

5. Preparo do corpo docente

O principal caminho para uma sociedade menos racista é a educação das pessoas. E esse deve ser um dos objetivos dos docentes envolvidos em qualquer processo formativo. Para que isso ocorra da melhor forma possível, é necessário que essas pessoas tenham instrução adequada sobre o tema.

E não basta conhecer, é preciso saber ensinar! Muitos professores veem algum tipo de má conduta acontecendo em suas aulas, mas não sabem necessariamente como agir. E não se engane, é preciso agir. Fingir que não está acontecendo não tornará o mundo melhor.

Para que isso ocorra, no entanto, é preciso ter uma conduta coletiva, pautada nos valores da IES, que deve delimitar junto a seus docentes como atuar em certos casos. Isso dá segurança aos professores, vítimas de discriminação e ainda cria limites rígidos em torno do assunto.

Além disso, é preciso promover capacitações que contemplem a realidade do racismo no Brasil, para que a formação inicial dos professores não seja definidora das condutas empregadas. 

A proximidade com os alunos, nas salas de aula, faz com que professores possam intervir de forma efusiva, sem ter que romper vínculo com os discentes que possuem comportamento discriminatório. O papel do professor não é julgar, mas conduzir conversas e reflexões racionais a respeito do tema. 

É preciso lembrar que os alunos, mesmo aqueles não brancos, podem reproduzir uma série de comportamentos aprendidos e reforçados nos mais diferentes espaços e contextos, tornando-os parte de um complexo sistema que mantém desigualdades. 

6. Material antirracista

Uma prática educacional antirracista precisa estar amparada em materiais educativos igualmente comprometidos com a causa. Mas o que seria, exatamente, esse material? É possível saber quais materiais reproduzem racismo e quais não?

Infelizmente, salvo em casos que vêm a público, é muito difícil definir quais materiais estão comprometidos com essa perspectiva sem antes ter acesso a eles. Mas existem algumas diretrizes para as pessoas que os escolhem e montam os planejamentos educacionais.

A primeira delas é observar sob qual olhar a história é contada. Em basicamente todos os cursos há elementos históricos vinculados às práticas profissionais. O modo de contá-los é que delimita se há compromisso com perspectivas antirracistas ou não. 

Um exemplo clássico, dentro da história do Brasil, é a retratação de pessoas escravizadas e do processo de colonização. Para que possamos contar essa história de forma justa, é possível recorrer aos estudos decoloniais, que podem ser incorporados a quaisquer conteúdos que retratam esse período do país.

Um olhar atento vale muito! Professores, alunos, e demais participantes da comunidade acadêmica, devem desenvolver o pensamento crítico a respeito das questões de raça, para serem capazes de ver os desdobramentos da descriminação em quaisquer cenários.

Na educação antirracista, é preciso consumir conteúdo negro. Por isso as IES devem investir nas narrativas pretas em todas as frentes educativas. Uma biblioteca com títulos escritos por autores negros é imprescindível para marcar, cada vez mais, a presença desses autores na cena intelectual.

Palestras, aulas magnas, e eventos de abertura do semestre podem ser protagonizados por pessoas negras. E não apenas para falar sobre questões relativas ao racismo, mas também sobre o tema que lhes é caro, naturalizando a liberdade de pessoas negras em falar sobre quaisquer assuntos.

A partir de tudo que pudemos discutir, é notável que o racismo possui grandes alicerces na sociedade e que a educação é a ferramenta capaz de transformar essas estruturas para melhor, por isso faz-se necessário o comprometimento coletivo com as pautas antirracistas. 

A educação é a forma mais gentil e abrangente de atingir os objetivos de igualdade e de promoção da dignidade humana, em conjunto com as políticas públicas e questões culturais das pessoas não brancas. 

Como pudemos perceber, uma sociedade racista, com ações de ódio, só traz sofrimento e adoecimento a todos os envolvidos, e com ações simples, mas cheias de intenção e transformação, é possível mudar o pensamento de muitas pessoas, que irão se tornar multiplicadores de boas práticas. 

A beleza da educação está não apenas no ensinar determinada prática ou conteúdo, mas em deixar diretrizes de uma vida melhor para a humanidade. As questões de raça precisam de um olhar sensível, e do empenho sincero de todos nós. 

Esperamos que você tenha gostado deste artigo sobre educação antirracista. Para continuar lendo um pouco mais sobre a importância da diversidade, separamos este artigo sobre como promover a inclusão de estudantes com deficiência no ensino superior.

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