Dissecando os objetivos de ensino: saiba como trabalhá-los na aula

Os objetivos de ensino são fundamentais para um planejamento adequado de aulas. Veja como elaborar no contexto da IES!

Em todas as esferas da vida, é bastante comum definirmos objetivos a serem alcançados. Por exemplo: fazer um curso superior, ou viajar para determinado estado ou país etc. Na sala de aula não é diferente! Quando falamos em educação, ter em mente um ou mais objetivos nítidos é essencial para todo o planejamento de aula e de estudo.

Esse trabalho é tão necessário que passou a ser incorporado de forma mais evidente na educação básica: na Base Nacional Comum Curricular, documento que orienta a criação dos currículos de todo o país, há uma série de habilidades que ajudam a formular objetivos. Trata-se de uma das alterações trazidas pelo novo Ensino Médio.

Entretanto, embora essa definição seja importante, poucos são os materiais didáticos, instrucionais e pedagógicos que já trazem objetivos de ensino definidos, de forma que o professor consiga mensurar o aprendizado do aluno em sala — principalmente no ensino superior.

Neste artigo, você verá o que são de fato objetivos de ensino, por que criá-los e como criá-los no ensino superior — tudo isso com embasamento da literatura acadêmica para o assunto. Vamos lá?

O que são objetivos de ensino?

Considerando a definição do dicionário Houaiss, objetivo é “aquilo que se pretende alcançar quando se realiza uma ação; alvo, fim, propósito, objeto”. E objetivos de ensino? Também conhecidos como objetivos de aprendizagem, eles são todas as descrições articuladas que expressam o que é esperado que os estudantes aprendam e desenvolvam ao longo de um curso. 

Os objetivos de ensino correspondem ao que todos os alunos de uma sala devem conseguir saber e fazer ao fim de uma aula, ou de uma sequência de aulas, ou de um curso inteiro. Assim, os objetivos podem ser definidos considerando um período menor ou maior de tempo do curso.

Saberes e habilidades

Vamos considerar um exemplo de um objetivo de ensino:

  • Identificar os órgãos que compõem o sistema digestivo dos coelhos.

Para alcançar esse objetivo, o professor deve previamente selecionar os conteúdos de estudo, as aulas de laboratório e as experiências de aprendizagem em geral necessárias para que o estudante consiga realizar a ação definida pelo objetivo.

Assim, é possível concluir que definir um objetivo de ensino orienta o professor em relação a tudo que é necessário ser trabalhado em sala de aula. Com ele, o professor consegue selecionar e organizar todos os conteúdos de forma muito mais assertiva e produtiva para as aulas.

Além disso, considerando novamente o objetivo “Identificar os órgãos que compõem o sistema digestivo dos coelhos”, é possível verificar que, com ele, é esperado que o estudante não apenas tenha conhecimento a respeito dos órgãos dos coelhos, mas sim que saiba identificá-los adequadamente.

Em outras palavras, os objetivos de ensino definem também o que é necessário saber fazer com o conhecimento — e, por consequência, tudo que envolve esse “saber fazer” (por exemplo, manusear um instrumento de dissecção), que são as habilidades.

Aprendizado gradual

Além disso, os objetivos de ensino são adaptáveis ao contexto em que o estudante está. Alguns fatores que influem nessa adaptação:

    • Estágio em que o estudante está no percurso educacional. Por exemplo, os objetivos em um curso da educação básica (como a 1ª série do Ensino Médio) são mais simples do que os objetivos em um curso do ensino superior.
    • Estágio em que o estudante está dentro do curso que está fazendo. Por exemplo, os objetivos do 1º semestre de um curso superior são diferentes, em complexidade, dos objetivos do último semestre do mesmo curso.

Por que criar objetivos de ensino?

Até agora, foi possível formar uma noção a respeito da importância dos objetivos de ensino. Mas, afinal, por que criá-los? Quais são todos os benefícios que eles trazem?

A primeira razão é mais óbvia: com os objetivos, é possível mensurar tudo que o estudante deve saber e ser capaz de fazer ao fim do curso. Com base nesse primeiro pressuposto, é possível formular vários outros motivos para investir tempo na criação de objetivos de ensino. Vamos conhecer alguns?

Benefícios dos objetivos de ensino para IES

  1. Garante que o conteúdo programático do curso seja muito mais preciso e eficaz;
  2. Garante que os conteúdos serão oferecidos com nível de dificuldade gradual, à medida que os aprendizados vão sendo construídos;
  3. Ajuda que o planejamento das aulas e dos aprendizados seja feito considerando a devida adequação à aplicabilidade prática dos conteúdos teóricos;
  4. Incentiva que o aprendizado cubra não apenas a área cognitiva, mas também a socioemocional e a psicomotora, uma vez que propõe um equilíbrio com o desenvolvimento de habilidades práticas;
  5. Dá mais segurança ao professor, que ao manter os objetivos em mente, consegue orientar melhor a condução das aulas ao longo dos semestres e selecionar com mais critério os conteúdos a serem passados;
  6. Orienta a montagem de provas e outras atividades avaliativas, já que o professor sabe exatamente o que deve ser avaliado;
  7. Apoia a IES na avaliação da eficácia do programa educacional dos cursos, já que os objetivos de ensino oferecem um parâmetro para verificar o desempenho dos estudantes.

Com base nessas vantagens dos objetivos de ensino, é possível compreender que, sem eles, fica muito mais difícil tanto para o professor quanto para a IES aferir a eficácia dos cursos.

Sem um objetivo nítido, os conteúdos teóricos, as atividades práticas e os diversos tipos de avaliação têm mais chance de ficarem perdidos em meio ao curso, sem saber exatamente o que estão construindo no aprendizado do aluno.

Benefícios dos objetivos de ensino para alunos

Em termos de benefícios para os alunos, os objetivos de ensino, quando bem explícitos e direcionados:

  • Ajudam o estudante a direcionar sua atenção para os conteúdos que realmente são importantes na hora do estudo, os prioritários;
  • Ajudam o estudante a verificar em que nível estão nas habilidades que adquiriram ao longo do curso, e o que precisa ser melhorado para conseguirem atingir o objetivo;
  • Servem de guia para a autoavaliação do aluno.

Como definir os objetivos de ensino na prática?

Vimos que os objetivos de ensino oferecem uma série de benefícios para todos os envolvidos nos processos de ensino-aprendizagem. 

Porém, como criá-los? Quais são as melhores estratégias para criar objetivos de ensino sólidos, assertivos, concisos, que realmente ajudem nas aulas?

Vamos ver alguns preceitos metodológicos que podem ajudar nesse sentido!

Planejando o objetivo de ensino com o backward design

É bastante comum que, após muitos e muitos anos de sala de aula, a rotina acabe pesando. 

Imagine, por exemplo, um curso de Ciências Biológicas: o professor já  deve ter ensinado o sistema digestivo de mamíferos em tantas turmas diferentes que fica difícil considerar a necessidade de fazer alguma mudança, ou planejar essa mesma aula de um jeito novo.

Entretanto, para planejar objetivos de ensino adequados, é necessário criar um novo modo de pensar o planejamento da aula como um todo. Uma das metodologias que apoiam esse novo modo de pensar é o backward design, metodologia criada pelos educadores Grant Wiggins e Jay McTighe.

Também é conhecida como design retroativo.

A premissa do backward design é inverter o modo de preparar aulas, começando pelo fim. Não se trata mais de pensar no conteúdo para então planejar as atividades e a avaliação. Trata-se de primeiro definir o objetivo que deve ser alcançado, para então pensar no resto.

De acordo com a metodologia do backward design, o passo a passo para elaboração de uma aula é:

  1. Definir objetivos de ensino.
  2. Determinar quais atividades (avaliações, provas, exercícios) permitirão verificar se os estudantes atingiram os objetivos criados no passo 1.
  3. Planejar todas as experiências de aprendizagem que serão necessárias para cumprir o que foi definidos nos passos 1 e 2. 

Nesta última etapa, é o momento de se perguntar: 

  • Que conteúdos minha turma precisa saber? 
  • Que habilidades precisam ser desenvolvidas? 
  • De quais recursos preciso para ministrar as aulas? 
  • Que metodologias podem ser aplicadas para que o aprendizado seja mais significativo?

Exemplificando o passo a passo do backward design

Para ficar mais claro, vamos retomar o exemplo do objetivo do curso de Ciências Biológicas: 

  1. Passo 1: Definir o objetivo. O objetivo definido é: “Identificar os órgãos que compõem o sistema digestivo dos coelhos”.
  2. Passo 2: Determinar as atividades que darão evidências ao professor sobre o alcance do objetivo. Um exemplo de atividade poderia ser: Após uma atividade em laboratório, estudantes devem produzir um relatório detalhado, com fotos, identificando e descrevendo os órgãos que compõem o sistema digestivo.
  3. Passo 3: Planejar as experiências de aprendizagem que levarão à atividade do passo 2 e garantirão que o objetivo do passo 1 seja cumprido. Alguns exemplos: aulas teóricas sobre o sistema digestivo de mamíferos, atividades de laboratório que orientem o manuseio correto dos equipamentos de dissecção, entre outros.

Agora ficou mais fácil entender, não é mesmo? A definição dos objetivos de ensino faz parte da elaboração do plano de curso — clicando na imagem abaixo, você acessa um modelo que elaboramos. Ele conta com exemplos de objetivos de ensino e do que você deve preencher em todos os demais campos.

Template de Plano de Curso: clique aqui para baixar nosso modelo!

Como redigir os objetivos de ensino?

Vimos como o passo a passo do backward design pode apoiar na criação de um objetivo de ensino sólido e verificável. Entretanto, como redigir o objetivo de aprendizagem de fato isto?

Isto é, como criar o texto do objetivo de forma que ele seja robusto o suficiente para apoiar o restante dos passos?

Estrutura dos objetivos de ensino

Antes de tudo, vamos falar sobre a estrutura desses objetivos. O formato ideal é:

Verbo + Objeto de conhecimento + Contexto

Para ajudar a ilustrar, vamos analisar o objetivo fictício que estamos utilizando como exemplo: Identificar os órgãos que compõem o sistema digestivo de coelhos.

  • Verbo = Identificar
  • Objeto de conhecimento = Órgãos que compõem o sistema digestivo
  • Contexto = Coelhos

Agora, vamos entender por que esses elementos são essenciais na formulação de um objetivo de aprendizagem.

  • Verbo: É ele que indica a ação cognitiva específica e sua aplicação. Sem ele, fica muito mais difícil entender o que se espera dos estudantes.
  • Objeto de conhecimento: É ele que indica o conhecimento exato que o estudante deve demonstrar saber.
  • Contexto: É o que apoia o professor na hora de desenhar a experiência de aprendizagem. Sem ele o professor poderia, por exemplo, propor que a identificação fosse de órgãos de seres humanos — o que fugiria da proposta da aula e do contexto da disciplina.

Além de saber que os objetivos de ensino bem construídos devem ter essa estrutura em formato de tripé, vale dar uma atenção especial ao verbo do objetivo. 

A taxonomia de Bloom

Também chamada de taxonomia de objetivos educacionais, a taxonomia de Bloom é um sistema de classificação de ações cognitivas que ajuda a hierarquizá-las, de forma que se tornem mais mensuráveis para o reconhecimento do aprendizado. 

Foi criada pelo psicólogo Benjamin Bloom em 1956 e, desde então, é usada como referência para a formulação de objetivos de ensino.

A importância dessa taxonomia vem de 2 fatores principais:

  1. Ajudam a criar objetivos que estejam adequados aos domínios cognitivos esperados;
  2. Ajudam a criar objetivos que proponham ações cognitivas específicas, que podem ser mensuradas de maneira fácil pelo professor.

Os domínios cognitivos propostos na taxonomia de Bloom são, em ordem de complexidade: recordar, compreender, aplicar, analisar, avaliar e criar.

Em outras palavras, é possível dizer que, em seu percurso de aprendizagem, o estudante:

  1. Recorda algo sobre o objeto de conhecimento novo (conexão com aprendizados anteriores de sua vida);
  2. Compreende de fato seu funcionamento;
  3. Aplica o que aprendeu a respeito desse objeto de conhecimento em algum contexto;
  4. Analisa o objeto de conhecimento, entendendo melhor como ele se estrutura;
  5. Avalia o objeto de conhecimento;
  6. Cria algo a respeito do objeto de conhecimento.

Dentro de cada um desses domínios cognitivos propostos, há ações cognitivas específicas que ajudam o professor a mensurar seus aprendizados. Daremos aqui alguns exemplos.

Domínio “Recordar”

Definir, identificar, listar, reconhecer, enumerar, desenhar, citar.

Domínio “Compreender”

Comparar, associar, descrever, exemplificar, ilustrar, relacionar, diferenciar, explicar, conceituar, reordenar, expressar.

Domínio “Aplicar”

Classificar, escolher, executar, experimentar, fazer, implementar, resolver, solucionar, usar, utilizar, traduzir, distribuir.

Domínio “Analisar”

Categorizar, comparar, deduzir, determinar, diferenciar, investigar, examinar, sumariar, subdividir, relatar.

Domínio “Avaliar”

Argumentar, criticar, concluir, decidir, defender, estimar, julgar, inferir, opinar, qualificar, recomendar, valorizar.

Domínio “Criar”

Atualizar, construir, elaborar, idealizar, imaginar, modificar, inventar, planejar, produzir, projetar, propor, revisar, remodelar.

Em suma, a ideia por trás do uso da taxonomia de Bloom para a redação de objetivos de ensino é que os professores podem classificar o conhecimento que precisa ser adquirido no devido domínio cognitivo. 

A partir disso, ele decide qual será a ação cognitiva a ser realizada pelos estudantes, por meio dos verbos associados a ele.

Como criar objetivos de ensino na educação superior?

Em qualquer segmento da educação, a lógica por trás da criação de objetivos de ensino é a mesma. A diferença entre um e outro é a adequação ao contexto: os objetivos de ensino são diferentes para estudantes da educação infantil e para estudantes de uma pós-graduação, obviamente.

Na educação superior, é importante que os objetivos de ensino estejam alinhados ao Projeto Político-Pedagógico da instituição e ao projeto do curso oferecido. 

Esses alinhamentos são realizados em etapas anteriores ao planejamento de aula e, por serem tão importantes para todo o funcionamento da IES, devem estar muito nítidos para todos os profissionais envolvidos. 

A partir deles, é possível estruturar os objetivos de ensino em duas etapas.

  • Objetivos gerais da disciplina

Os objetivos gerais da disciplina são aqueles que só serão mensurados ao fim do curso, e representam um norteador geral de todas as aulas ministradas. São sempre criados considerando o que se espera que seja alcançado pelos estudantes ao fim da disciplina.

Esses objetivos devem estar diretamente alinhados com o projeto pedagógico de curso, considerando o tipo de profissional que ele visa a formar. Idealmente, eles não consideram apenas os conhecimentos teóricos técnicos: devem contemplar também as habilidades e competências de todas as ordens necessárias para a formação do estudante enquanto cidadão e profissional futuro.

No caso desses objetivos, não é tão necessário atentar para ações cognitivas específicas, já que se trata de um norteador geral que orientará a criação dos objetivos menores (estes sim precisam de ações específicas).

  • Objetivos de ensino divididos por aula ou grupos de aula

A partir dos objetivos gerais da disciplina, os professores conseguem determinar os objetivos de ensino. A duração esperada para cada objetivo pode variar: é possível que o professor defina um ou mais objetivos para cada aula, ou um objetivo a ser cumprido em um conjunto de aulas etc.

É nesse contexto que os objetivos devem ser definidos, idealmente, considerando a estrutura básica de verbo + objeto de conhecimento + contexto. Além disso, usar a ordem dos domínios cognitivos ajuda os professores a entender como fazer a gradação correta entre um aprendizado e outro.

Esperamos que este artigo te ajude a criar bons objetivos de ensino na sua IES. Leia nosso próximo artigo e saiba mais sobre planejamento educacional!

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